"Conheci o Mário muito antes de ele iniciar no radio..."
TADEU DE SOUZA
Viajou para eternidade na manhã de um sábado chuvoso, o radialista Mário Silva. Menino pobre que se tornou uma referência no rádio no interior do Amazonas, Mário durante mais de 20 anos fez sucesso com o programa “Clube dos Bairros”. Sempre na Rádio Clube, de propriedade da família Gonçalves.
Era eclético. Apresentador. Animador. Criador de bordões que estão para sempre na história da imprensa do norte.
São dele sacadas como essa: eu vou te contar, olha a touca, quando o individuo vacilava na vida, podem convidar, não podem convidar (para retratar rompimento politico ou pessoal) enfim, tantas outras que marcaram sua trajetória profissional.
Conheci o Mário muito antes de ele iniciar no rádio. Ele fazia propaganda de Rua com José Maria Pinheiro e com o próprio Pinheiro animava o Caprichoso, sua grande paixão.
Viajei. Fui correr mundo e quando voltei Mário já era nome consagrado no rádio. Dominava as tardes da Ilha com o seu programa.
Depois que casou com Lurdinha Marinho, minha ex-colega de trabalho na Assembleia Legislativa, fomos vizinho no conjunto João Novo. Quando o Vasco da Gama ganhava ele chegava em casa alta madrugada tocando o hino de seu time.
Mas, foi na abertura de seu programa que ele, apenas com a vivência de campanhas eleitorais que comandou pelo beiradão, retratava o ambiente familiar da floresta.
O caboclo. O rio. O homem. A natureza com sua beleza e seus riscos mortais. A pesca. A fartura. O amor da cabocla cheirosa. A várzea. A terra-firme. A seca e a vazante. O menino que, solitário no porto, gritava de alegria: mamãe lá vem papai!
A proa baixa da canoa era sinal de boa pescaria. A proa alta sinal de pesca ruim.
Fome na certa.
Quando o grupo Raman Neves de Comunicação assumiu por quatro anos a Rádio Clube de Parintins e por determinação pessoal de Otávio Raman, presidente do grupo, fui dirigir à emissora, tive a oportunidade de conhecer bem de perto o profissional, o amigo, o companheiro, o pai de família, o torcedor e o radialista das grandes enquetes e promoções.
É meu querido Mário, em qualquer rádio de qualquer capital deste País, você seria campeão de audiência como foi esses anos todos.
Sua partida entristece a todos.
Empobrece o rádio. Enluta o Caprichoso.
A tua morte, Mário, é como se o Vasco da Gama, aos 45 minutos do segundo tempo, perdesse um título depois de estar ganhando a partida.
O desalento é o mesmo.
E como se Garantido de Lindolfo Monteverde, glorioso em sua farda encarnada e branca, derrotasse o azul de tantas tradições dos irmãos Raimundo, Pedro e Félix Cid, por apenas um ponto.
A tristeza é a mesma.
Enfim, Mário, nós todos temos que empreender essa passagem. É isso mesmo a morte é uma mudança de estado.
Nada mais.
Para os que creem o inicio da caminhada em busca da eterna paz. Para os que duvidam ou nada creem o fim.
Eu creio que a morte é nascimento. Aprendi isso cedo. Na convivência com dom Arcângelo Cerqua que me ensinou ler e a meditar sobre o que dizem os livros sagrados. E você, claro, alma boa, coração de criança, menino travesso que brincou até o fim com a doença terrível que o matou, renasceu junto a Deus, princípio e fim de todas as coisas.
Embora eu saiba lidar bem com a morte nesse sentido, não consigo serenidade para frequentar velórios ou sepultamentos.
Os únicos que fui foram os de meus pais. E não poderia deixar de ir. Portanto, não irei te acompanhar até o local que teu corpo repousará.
Porém, quero te revelar o seguinte: no momento que a querida Lurdinha, por telefone, me confirmou a tua partida, de joelhos, no silêncio do quarto do hotel que me encontrava, iluminado pela amizade e abençoado pela ternura de nossa convivência, pedi que a luz de Cristo te guie neste belo caminho de estrelas que estas percorrendo e que um dia todos nós, que ficamos neste lado da vida, iremos percorrer.